Biden ‘a la Trump’ na imigração

Por: Rodrigo Lins*

A recente visita da vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris à Guatemala para tratar de assuntos imigratórios escancara uma mensagem ideológica da política imigratória adotada pela gestão Biden neste primeiro semestre de governo. Reforçada com a continuidade de medidas de deportação em massa e amplo controle e combate à imigração irregular na fronteira americana, assombra a frase “não venham aos EUA de forma irregular” dita por Harris e amplamente divulgada pela imprensa mundial.

Na contramão da representatividade de sua imagem, Kamala Harris – primeira mulher descendente de imigrantes e negra na vice-presidência do país – explicita a contradição do governo ao discurso de esperança para imigrantes adotado na última corrida eleitoral americana. Nos primeiros seis meses da gestão Biden, o que, de fato é sentido pela comunidade imigrante, de modo geral, é a manutenção da política de tolerância zero na imigração defendida e aplicada pelo predecessor Donald Trump.

A caça aos imigrantes indocumentados nos EUA mantém-se em níveis “Trumpianos”, inclusive nos estados. No Texas, por exemplo, o governador, Greg Abbott, anunciou uma política de tolerância zero contra imigrantes indocumentados que atravessarem, irregularmente, a fronteira. Também alertou que não renovará licenças para manutenção de abrigos para crianças separadas dos familiares no estado. Atualmente existem mais de 50 abrigos para crianças imigrantes somente no Texas.

A recente decisão da Suprema Corte americana que determinou a impossibilidade de pessoas que entraram nos Estados Unidos de forma irregular se candidatarem ao sonhado ‘green card’ – ou documento que garante a residência permanente – deixa o cenário ainda mais sombrio para imigrantes irregulares no país. A decisão afetará, inclusive, os jovens do programa DACA, conhecidos como ‘dreamers’ que foram árduos apoiadores da plataforma Biden-Harris na última eleição mirando uma saída imigratória.

Enquanto isso, o número de pessoas detidas ao cruzar a fronteira do México com os EUA, somente em abril deste ano, já é o maior em 20 anos. O número de brasileiros que tentam entrar irregularmente no país norte-americano cresceu em 2021. Em abril deste ano foram apreendidas 178.622 pessoas na fronteira com o México. Destas, 8.745 eram brasileiros.

Os números oficiais mostram que de outubro de 2018 a setembro de 2019 o número de brasileiros detidos foi de 17.800. De outubro de 2019 a setembro de 2020 o total foi de 6.900 brasileiros. Já de outubro de 2020 a abril de 2021 o total foi de 14.600 brasileiros detidos na fronteira buscando entrar irregularmente no país.

Para estes imigrantes brasileiros, temos a preservação das deportações em massa em aviões fretados pelo governo americano com a facilitação assinada pelo presidente Jair Bolsonaro na última visita aos EUA. Último voo com mais de 100 pessoas deportadas pousou no Brasil em maio e um novo avião lotado com imigrantes brasileiros irregulares está previsto para o fim deste mês.

A contradição do tom por parte do governo Biden-Harris na pauta imigração – antes e pós eleição – é, sem dúvida, um dos fatores mais surpreendentes para a comunidade imigrante que apostou nesta plataforma como mais favorável a uma possível reforma imigratória no país. Agora, o que se mostra claro é que também a gestão Biden não facilitará a vida de quem escolhe entrar irregularmente no país.

*Rodrigo Lins é Mestre em Comunicação, Pesquisador da Imigração americana, Professor universitário, jornalista e escritor. Teve a carreira reconhecida como extraordinária pelo Governo Americano em 2016 e reside legalmente nos EUA. É autor do livro “Internacionalize-se: Parâmetros para levar a carreira profissional aos EUA legalmente”, lançado em 2019. Dirige a agência de Comunicação, Marketing e Imprensa multinacional Onevox Global com sede nos EUA. Mais informações: onevoxglobal.com

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