Comércio Exterior na Mira da Guerra

Por: Paulo César Alves Rocha*

A Guerra travada na Ucrânia, está mudando a forma como tratamos hoje a economia, o transporte entre países, a conexão de redes de dados, a interconexão dos mercados financeiros, como trabalhamos e produzimos. Uma “pré-estreia” no caso do transporte aéreo já havia acontecido na erupção do vulcão na Islândia.

A economia mundial está muito interconectada tanto no sistema financeiro, quanto na indústria e no comércio. Transações financeiras são realizadas em tempo real no mundo todo, as informações de abertura dos mercados financeiros são passadas quase que instantaneamente, pode-se operar contas bancárias em qualquer parte de qualquer parte do mundo.

As indústrias seguem dois conceitos bem fortes, o primeiro é que elas são um elo de uma imensa cadeia de suprimentos, o que quer dizer que geralmente ela depende de insumos e seu produto pode ser um insumo de outro, o segundo – a competitividade – consiste em adquirir sempre produtos de locais onde ele seja mais barato e tenha qualidade.

O comércio então se expande junto com a logística acompanhando as cadeias de suprimentos, passando a ser globalizado. Estes conceitos de competividade e interconexão dos mercados, está sendo colocado a prova desde a erupção do vulcão na Islândia, depois na Pandemia e agora como consequência da Guerra na Ucrânia, pois a paralização ou efeitos em um meio de transporte, afeta o comércio internacional e paralisa indústria e negócios, este último no Brasil representado pelo agronegócio.

No momento, estamos sentindo os efeitos da Guerra e da Pandemia, esta quando se pensa que acabou volta agora como na China, paralisando uma importante região industrial. Como no caso da guerra, estes problemas locais de Pandemia afetam o comércio internacional e por consequência o setor industrial, também pela retenção de contêineres.

Para o Comércio Exterior se trata de uma desarrumação total, porque contêineres e mercadorias ficarão em pontos produtores ou de destino, afetando a cadeia de suprimentos. As consequências serão que as redes de suprimento, baseadas nas competências de cada país de produzir melhor e por valores mais baixos, que fazem com que um determinado produto possa ter partes fabricadas em diversos países e finalizadas em outro, deverão ser avaliadas, porque todos os países e empresas tenderão a revisar seus planos estratégicos.

Estoques de mercadorias e principalmente de mercadorias absolutamente necessárias para um vivenciamento mínimo, que nos antigos conceitos de cadeia de suprimentos eram minimizados ou centralizados em locais com facilidade de transporte até os seus locais de consumo, deverão ser reestudados.

Outra consequência da guerra, aliada às metas da COP26, será a da aceleração da mudança das matrizes energéticas de energia à base de materiais fósseis para energia limpa. Para o Brasil, a guerra e a perduração da Pandemia causam apreensão quanto à fertilizantes e preço maior de commodities como petróleo, milho e trigo, mas também causa apreensão porque toda a cadeia de suprimentos será afetada e teremos que verificar caso a caso.

Para o caso particular de fertilizantes, alguns nós temos restrições por falta de jazidas que satisfaçam nossas necessidades, mas existem outros que aqui poderiam ser produzidos desde que pudéssemos evitar os gargalos logísticos e de natureza tributária. De qualquer forma termos que diversificar os fornecedores no curto e médio prazo. Outros pontos em discussão no momento, são a possibilidade de menor utilização de fertilizantes e o uso de fertilizantes orgânicos, que temos bastante.

Embora seja cedo para traçar cenários é certo que a Logística de Comércio entre Países (comércio exterior) sofrerá alterações, quer pelas modificações nos conceitos de cadeias de suprimento, quer pelas mudanças de consumo de mercadorias como um todo (petróleo, gás, equipamentos, produtos químicos e farmacêuticos, alimentação em geral), seja pela forma com que são tratados, passando a haver necessidade de um planejamento de custos de transporte, armazenagem e forma de pagamento de tributos.

Assim, os profissionais que trabalham em Logística, Logística Aduaneira e Consultoria em Regimes Aduaneiros, devem estar atentos a todas as modificações que virão.

*Paulo César Alves Rocha é especialista em infraestrutura, logística e comércio exterior com mais de 50 anos de experiência em infraestrutura, transportes, logística, inovação, políticas públicas de habitação, saneamento e comércio exterior brasileiro. Mestre em Economía y Finanzas Internacionales y Comércio Exterior e pós-graduado em Comércio Internacional pela Universidade de Barcelona. É mestre em Engenharia de Transportes (Planejamento Estratégico, Engenharia e Logística) pela COPPE-UFRJ. Pós-graduado em Engenharia de Transportes pela UFRJ e graduado em Engenharia Industrial Mecânica pela Universidade Federal Fluminense. Tem diversos livros editados nas Edições Aduaneiras.

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